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Frank Horvat: uma vida na fotografia da moda

Fashion Photos - Jardin des Modes (1957-60)
FRANK HORVAT: UMA VIDA NA FOTOGRAFIA DE MODA
Por HENRIQUE MARQUES-SAMŸN (*)
([email protected])
colunista do site Moda Almanaque

Após mais de meio século trabalhando com fotografia, Frank Horvat já respondeu à maior parte das perguntas possíveis, o que justifica o aviso que me dá enquanto negociamos a entrevista: “odeio responder a perguntas que eu já respondi milhões de outras vezes”. A tarefa está determinada: é preciso reler outras entrevistas, capítulos de livro e dados biográficos, procurando por tudo aquilo que ficou nos silêncios e nas entrelinhas, mas é significativo o suficiente para justificar a entrevista. Não se trata, no entanto, de algo muito difícil no caso de Horvat – um fotógrafo que ajudou a revolucionar a história da fotografia de moda, responsável por escrever um de seus mais importantes capítulos no século XX. Foi ele, afinal, o grande responsável por dar novos rumos ao naturalismo na fotografia de moda nas décadas de 50 e 60, criando novos cânones de elegância e um estilo que, de tão imitado, em fins dos anos 60 já representava um novo mainstream, exigindo de seu próprio criador uma mudança de rumo.

As respostas são sempre simples e diretas como o estilo fotográfico que o consagrou; apesar de confessar que se irrita por ser conhecido quase que exclusivamente como fotógrafo de moda, a despeito de seus importantes trabalhos em outras áreas – notavelmente o fotojornalismo e os retratos – , Horvat mostra-se disposto a responder mais de uma dezena de perguntas sobre sua vida e sua obra. Ao menos, um consolo: terminada a entrevista, as palavras de Horvat – “suas perguntas foram excelentes” – fazem valer todo o esforço.


Illustrazione Italiana (1950)
Harper’s Bazaar (1961-66)
French Vogue (1966-79)
Frankfurter Allgemeine Magazin (1980-88)

PRINCÍPIO E FIM DA FOTO DE MODA

Começo a entrevista perguntando sobre o início da carreira de Frank Horvat: aquelas primeiras fotos, realizadas em 1950, para a Illustrazione Italiana, num evento em Firenze. É fato conhecido que pouco tempo depois, já em 1957, Horvat se queixava destes trabalhos, a respeito dos quais dizia “não estar muito orgulhoso”. O que havia de tão errado com aquelas fotos? “A única que eu guardei está OK, embora possivelmente por acidente”, diz Horvat, “mas para a maioria das outras eu não tinha nem um objetivo claro, nem uma técnica adequada”. Na verdade, não apenas uma boa quantidade das fotos de 1950 foram destruídas, mas também muitos negativos da época em que o fotógrafo trabalhou para a revista Jardin des Modes, entre 1957 e 1960, na qual também trabalharam grandes nomes como Helmut Newton e Jeanloup Sieff. Em um depoimento incluído em sua retrospectiva, diz o fotógrafo que essa destruição foi feita em um ímpeto de autocrítica, do qual mais tarde se arrependeu; no entanto, conta agora outra versão: “Não foi autocrítica. Foi influência de meus amigos da Magnum, que rejeitavam a foto de moda”. Horvat fez parte da famosa agência de fotojornalismo, na qual aliás conheceu uma de suas principais influências: Cartier-Bresson, com quem certa vez afirmou ter aprendido o significado de ser um fotógrafo.

Foi logo depois de seu trabalho na Jardin des Modes que o trabalho de Horvat tornou-se conhecido, e começou o ápice de sua carreira. Na década de 60, suas fotos para a Harper’s Bazaar e para a Vogue francesa inauguraram um novo estilo na fotografia de moda: um naturalismo que, isento das pretensões ideológicas de Louise Dahl-Wolfe e distante dos comentários vanguardistas de William Klein, tirava sua força da elegância da composição e da singela beleza do conteúdo. Embora afirme que este estilo naturalista tem raízes em seu próprio modo de viver, Frank Horvat não perde muito tempo especulando sobre essa relação – “Para fazer isso, eu precisaria deitar em um divã psicanalítico!” – , preferindo uma resposta muito menos elaborada: “Penso que eu simplesmente gostava daquelas garotas, e queria mostrar o que eu gostava nelas”. De fato, em outra ocasião, Horvat afirmou que seu método de fotografar está relacionado a uma certa atração subjetiva: é preciso encontrar o que há de mais interessante nas modelos – suas melhores expressões, ou as mais verdadeiras. Horvat, aliás, afirmou certa vez que, nesta época, por não estar muito interessado em moda, usou como critério de escolha para as modelos aquelas que achava mais sexies; seria isto verdade? “Não as mais sexies, mas as que mais me atraíram…” e prossegue: “Na verdade, eu gostava de algumas coisas da alta costura, como Balenciaga, Grès e algumas coisas de Givenchy, da mesma forma como eu aprecio boa comida em um restaurante três estrelas. Mas quando eu não posso comprá-la, eu fico feliz com uma boa pizza. A maior parte da moda que eu tinha que fotografar para estas revistas estava muito longe de ser uma comida três estrelas, e muito poucas delas eram mesmo uma boa pizza”.

Foi no fim da década de 60 que a fotografia de Horvat começou a tomar outro rumo. Imitado por todo o mundo, o fotógrafo sentiu a necessidade de renovar seu próprio estilo. Seu inovador trabalho na TWEN, de um lado, aproximou-se mais da sensualidade; de outro lado, como afirma Horvat, houve uma mudança em sua própria concepção acerca da foto de moda: “Eu desejei, naquele período, ser menos anedótico e me aproximar mais do essencial”. Há de fato um certo despojamento na obra de Horvat a partir desta época, principalmente nas fotos publicadas na Harper’s Bazaar, nas quais nota-se tanto a menor concentração de elementos na foto quanto uma acentuação do rigor formal. Aliás, toda a obra de Horvat no longo período que se estende desde a década de 60 até a década de 80 vai apresentar, cada vez mais, uma radicalização desta busca pelo essencial. Exemplares disso são algumas fotos publicadas na Frankfurter Allgemeine: em uma, vemos apenas os dedos de um pé feminino, na areia da praia; em outra, um colar em um pescoço. Os poucos elementos, no entanto, são suficientes para representar uma espécie de “essência da feminilidade”; e, mais ainda: expressam uma concepção idealista da foto de moda que, segundo Horvat, estava em seus últimos dias. “Eu acredito que meu tipo de fotografia de moda chegou ao fim há cerca de vinte anos atrás, independentemente dos computadores… embora seja verdade que nos tempos atuais a foto de moda é como um produto desenvolvido por computadores, da mesma forma como carros e aspiradores de pó”.

Ocasionalmente, Horvat tem retornado à foto de moda – como em seu trabalho realizado recentemente para o Museé Galliera, no qual lançou mão de recursos digitais para simplesmente “deletar” as modelos das fotos; no entanto, seu trabalho caminha cada vez mais para obras pessoais, como nas fotos que tem realizado nos arredores de sua casa ou em seu trabalho relacionado à obra de Ovídio “Metamorfoses”. Seria esse afastamento uma espécie de abandono? Talvez faça mais sentido pensarmos que, após mais de meio século de trabalhos na foto de moda, Horvat tenha alcançado o essencial – e optado pelo silêncio.

(*) HENRIQUE MARQUES-SAMŸN é filósofo e ensaísta. Pesquisador acadêmico nas áreas de arte e cultura, tem vários artigos publicados em jornais e revistas especializadas. Além de escrever para o Moda Almanaque, é colunista do Fotosite (www.fotosite.com.br), onde escreve sobre a estética da fotografia.”
Comentários

Interessante esse Frank Horvat… um pouco excêntrico mas muito sensato nas suas palavras. Rs. Vou dar uma estudada!
Valeu e um abraço!

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