Quando fumava, aliás fumei durante 13 anos, a primeira coisa que fazia quando acordava era pegar o maço de cigarros, sempre no criado mudo, e acender o primeiro de 40 Marlboros vermelhos diários. Isso mesmo, eu fumava 2 maços por dia. Hoje, 5 anos depois e 10 kilos mais pesado, mudei de vício. Troquei o maço vermelho por um Iphone 4, e os cigarros pelos emails, estes por sua vez chegam a cada 5 minutos, uma média de 290 emails por dia. A saúde agradece a mudança de vício!

Uma parte desses emails recebidos vêm de fotógrafos amadores avançados, profissionais já atuantes ou iniciantes com muitas dúvidas. Perguntas do tipo qual câmera comprar, onde encontrar assistência técnica para um  flash com problemas até onde recuperar imagens de um cartão de memória danificado.  Recebo também elogios, ameaças, spams e  agradecimentos. Pedidos de orçamentos também fazem parte. O mundo hoje é mais dinâmico e digital, isso é fato.

Hoje resolvi postar o primeiro email lido no dia, as 8:24 da manhã. Trata-se de um jovem que gosta de fotografia e que me lançou uma dúvida muito frequente entre aqueles que se encantam pela arte e profissão. Eu o reproduzi abaixo tirando sobrenome e contato para preservar sua identidade.

Prezado Alan,

A fotografia é uma área segura, principalmente se você não decidir ser um fotógrafo de guerra. Brincadeiras a parte, sei que normalmente os pais ensinam aos seus filhos, desde pequenos, que eles devem buscar estabilidade. Também fui criado assim, meu pai sempre dizia que eu deveria poupar pois o futuro a Deus pertencia. Eu acredito muito em Deus mas acho que não basta ele querer. Quem tem que buscar ser feliz antes do empurrãozinho dele sou eu mesmo. Sou eu quem levanto cedo, acordo, tomo banho, planejo e  e procuro realizar todos estes verbos ligados ao sucesso, palavra que só vem antes do trabalho no dicionário.

Esse mesmo pai que queria minha estabilidade me deu ferramentas para buscar minha realização. Não acredito em felicidade plena mas acho que sou feliz simplesmente por ter mais momentos bons que tristes na minha vida. Disso não posso reclamar. Ele me ensinou a trabalhar e a correr atrás dos meus sonhos. Quando descobri a fotografia, resolvi que sairia de uma profissão, na qual eu já obtinha algum êxito para buscar o incerto. Talvez duvidoso para aqueles que me acompanhavam de longe. Eu no fundo sabia o que queria, tinha objetivos e me encantava com a fotografia. Vários fotógrafos tentaram me desanimar, alguns até de forma inconsciente dizendo que o mercado estava entupido de fotógrafos. Na verdade, o que eles não poderiam prever é que hoje, 7 anos depois, mais profissionais entrariam na dança. Bem, uma parte deles não sobreviveu para ver o que acontece no mercado fotográfico mundial. Muitos já nem fotografam mais. Desistiram, sumiram, sucumbiram…o mercado é cruel para todos da mesma forma que o sol brilha para todos também.

Na verdade acredito que como em outras áreas o mercado além de saturado só tende a piorar no quesito fotógrafo por metro quadrado.  No nosso país, milhares de advogados, médicos, publicitários, dentistas e administradores são cuspidos pelas faculdades anualmente. Tenho vários colegas do antigo trabalho que também reclamam da profissão. Na verdade o mercado é um só, com oportunidades e ameaças que assombram os despreparados ou afortunam os perspicazes. É muito mais uma questão pessoal que macroeconômica acredito eu. A competitividade tende a aumentar e isso tem consequências graves, a primeira delas é que o fotógrafo bem sucedido não pode nunca parar no tempo e muito menos buscar a estabilidade. Ela é irreal! a segunda é que a qualidade dos serviços tende a aumentar. Muita gente brigando pela mesma fatia. Desespero  daqueles que preferem abaixar preços para ganhar concorrências  e muito suor e alegria de poucos que buscam ser diferentes para justificar o valor cobrado.

Eu não quero dizer aqui Alan, que sou bem sucedido ou que estou com a vida que pedi a Deus.S ei que hoje colho alguns doces frutos do que tenho plantado nos últimos anos mas tenho certeza de que há ainda muito a ser feito, enquanto eu ganhar a vida como fotógrafo e espero que isso dure muito. Não trabalho por dinheiro. Trabalho com ideal e prazer. Busco objetivos e sei que posso ser remunerado se fizer as coisas certas e se gerar valor aos meus clientes. O que leva um profissional a cobrar 100 e outro 1000 pelo mesmo trabalho? Bobagem alguém acreditar que se pode cobrar 10 vezes mais pelo mesmo serviço. O consumidor paga mais por aquilo que vale mais, pelo que é mais raro. Tudo que é mais escasso é mais bem remunerado. Só existe 1 Pelé, 1 Ayrton Senna e 1 Tiger Woods. Eles são únicos e fazem o que a maioria dos jogadores, pilotos e golfistas não eram capazes de fazer.

Nenhuma profissão é segura meu caro Alan. Não pretendo aqui fazer parte dos “corvos” que desanimam a jovem guarda. Se quiser apenas ganhar dinheiro com fotografia, talvez suas chances sejam mínimas. No entanto, se você gostar de fotografia e quiser ser bem remunerado aí sim assinarei embaixo. Todos aqueles que fazem o que gostam, uma pequena parcela de 5% da nossa população, têm grandes chances de ganhar dinheiro, sabe porque? Simplesmente porque eles  vão além do óbvio e das obrigações. Eles se doam mais, são entusiastas, contagiantes, trabalham por prazer e por isso fazem bem feito. Esta é uma tendência natural. Isso diz tudo não? Aprendi nesses tempos, errando e trabalhando muito que sou o principal responsável pelas minhas atitudes, sejam elas vencedoras ou não. Portanto, ciuide das suas, busque fazer algo que você gosta, com entusiasmo, dedicação, persistência. Nunca pare de aprender , seja humilde, trate bem seus clientes que com certeza, mesmo saturada, a fotografia lhe trará muita alegria.

Sucesso sempre.

Vinícius Matos
PS: Acho que eu diria o mesmo se fosse médico, astronauta ou capitão de um navio cargueiro.

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